segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Praia, samba, carnaval e futebol!
Exalta, exalta!
Mas se tudo fosse verdade
O ano inteiro dava sol
Praia, samba, carnaval e futebol!
Exalta, exalta!
Mas se tudo fosse verdade
O ano inteiro dava sol
A noite é fria, é escura
A noite arrepia e faz envolvente
A noite é silenciosa, mas não quieta
A noite é frígida e faz gemidos
Ah! Gemidos! Faz gemidos que acolhem
Acolhe e te faz sentir criança
Fecha os olhos e lembra
Te consome como a um vaga-lume
Que ilumina e apaga, só pra não faltar a luz
Quando a lua transforma e te faz dançar
A dança da noite com seus calafrios
Com suas flores densas e pensamentos arredios
A noite olha e te encara, coloca no muro
No escuro do muro, no alto do claro
Te pega sem avisar e leva à escuridão
Ah! Os gemidos da noite!
Te colocam no ar e sem ar a respirar
Te envolve na dança que nem criança
Que passa a chorar mas depois atenta
E volta a dançar, que nem a noite
Envolvente madrugada dos poucos
São muito os loucos que se atrevem a dançar
E dançam feito criança, escutam gemidos
Parecem aflitos, correndo perigo, mas voltam a dançar
Escrever é uma arte?
Se faço poesia, faço arte
Mas se escrevo, faço poesia?
Escrevo para poucos, escrevo para muitos
Se escrevo pouco, escrevo para menos?
Se escrevo textos e paradoxos
Posso eu inventar arte?
Se penso logo existo
E se escrevo logo penso?
E se o pensar me confunde
Então escrevo pra me clarear
Clareio-me tanto que escrevo poesia
E até faço arte
Passo então a ser artista
Mesmo sendo pouco
Torno-me arte
Se faço arte logo faço parte
Parte de tudo um todo
Parte de algo, porém
Algo que agora não sei
Mas ao menos sei
Sei que escrevo e faço parte
Sei que faço arte
Sei que faço o que faço
E escrevo minha arte
Então escrevo minha vida
Fazendo a escrita clara
Tão clara que tão bela
Transpondo o pensamento, livrando cada tormento
Mas se existo logo penso
Penso que existo logo
E logo escrevo o tormento
E clareio-me a arte na vida
Escrevo, escrevo, escrevo
-O total silêncio pode ser revelador ou desesperador, concorda com isso?
A sala permaneceu quieta, com um silêncio quase absoluto, cortado por um pequeno ventilador no canto do cômodo que ao ventilar o quarto fazia um barulho forte.
Uma pessoa levanta vagarosamente, caminha por toda a sala e o desliga. Dá um suspiro e retorna ao seu lugar de antes.
-O total silêncio pode ser revelador ou desesperador, concorda com isso?
-E porque pergunta isso?
...Silêncio...
-Por que perguntas isso!?
O silêncio permanece.
-Entendi quer que eu fique aqui perguntando, até eu me desesperar e você confirmar a tua resposta né? Mas tudo bem, eu não vou me submeter a isso.
Após algum tempo a sala permanecia com um silêncio ensurdecedor. Alguém puxa um cigarro do bolso, pega a caixa de fósforos e com cuidado para não quebrar o palito, acende o cigarro. Joga a fumaça ao ar, apreciando cada tragada no cigarro, aproveitando o caminho que a fumaça faz até chegar aos pulmões e ao sair pela tua boca e se espalhar ao ar.
20 minutos depois, uma voz rouca e grossa, parecendo com o de uma pessoa de idade, quebra o silêncio da sala:
- A partir de agora não mais falarei, ficarei mudo por opção, deixarei surdos os que vierem me falar e não proclamarei uma só palavra. Sendo assim deixar-me-ei fazer do silêncio minha revelação e deixando desespero com meu verdadeiro eu. É assim que farei, assim serei e nada me impedirá, agora começo a viver.
A porta foi aberta, algo de lá saiu, apagou a luz e saiu. Deixou pra trás tudo e nada, deixou pra trás o que quis e levou consigo o silêncio que o necessitava.
Vamos celebrar o célebre estandarte
Vamos celebrar potência de ser
Ficar atordoado com as luzes que se abrem no céu
Celebrar o grande rito de passagem dos índios
Vamos celebrar o grande cajado fincado na terra
Que a faz sangrar e chorar
Vamos ficar estáticos, sempre na inércia do tempo
Iremos sim de navio, levando conosco o balançar
Levaremos também os ditos feitos para o mar
Banharemos-nos nas águas turvas do oceano
Aí sim teremos a quem amar!
Me digas, o que tem de levar?
Levo aqui um coração parado por bater
Levo assim uma lucidez pedinte, mas que não sai pra ver
Trocando os miúdos com os miados e trazendo tudo no embalo
Levo a grande leviandade de levar o leve
E levo também o sábio, pra não levar o velho
E levo tudo que cabe comigo, levando até quem não posso contigo
Celebro o pesar de ter o que não ter
Converso com Czares e vejo o que não crer
Viro, rolo, mexo e peço colo
Duro um segundo e ainda assim não tenho motivo
E olho, olho, e olho, olhando o olho que me fez olhar
Pensando na vida, me fez parar
Paro... Pulo... E permaneço no mesmo lugar
Consigo o sorriso do lindo e me venho sentar
Olho o mundo na tela, me canso e fecho a janela
Agora me tranco sozinho, no mundo que eu posso criar
Agora crio, mato e desfaço e aqui posso trocar
E faço do risco um laço que posso lançar
Coloco mais nada em papel, porque não quero
E nem me sobra tempo e espaço
Só pra continuar o laço
Com a corda, laço mil maravilhas e até uma tal melodia que me faz alegrar
Olhando a bela Maria me fazendo suspirar
Conglomero e aperto até sufocar
E dou um belo sorriso para a dama do roliço
Que não pode mudar
Me faço sem maldade, como quem pede ao padre
Mas não sabe rezar
E continuo nessa dança, pulando feito criança
Só pra a vida alegrar
Mudo tudo, faço prosa, escrevo bossa, mato a rosa
Só pra começar
E com nenhum sentido, coloco pedra
E faço riso pra poder insinuar
Tirando todo o sentido de tudo que é divino
Só pra poder sufocar
Olhando em frente ao passado
Vejo gente, vejo sábio, mas não posso mudar
E assim é o ser, tão sabido e tão bonito
Que nem define ao belo olhar!
Roberto de Campos